"Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira." (Carl Gustav Jung)

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O caubói (ou Anacronismo)


O caubói aponta sua arma em minha direção.
Mas na cidade não há caubóis a vagar pelas esquinas.
Seria realidade ou sonho?
Em minha atual perspectiva, isso não passa de opinião
que condiz com minhas entranhas vazias.
Pode ser eu mesmo no espelho com um poncho
a repetir "Você está falando comigo?".

Posso ser o bom, o bruto e o cativo,
mas jamais serei John Wayne, Randolph Scott, Alan Ladd, Gary Cooper ou Clint Eastwood.
Sou eu mesmo,
ou seja,
um pária vindo do nada
vestido de preto da cabeça aos pés
e a (di)vagar devagar
pelos prados nebulosos da metrópole
com seu mar de gente.

Meu olhar é fundo,
sou taciturno e evasivo,
resmungo e falo apenas o essencial.
Não sou o caubói ideal,
sou apenas um sonhador
perdido nas nuvens ameaçadoras
que mais parecem gigantes quixotescos.
Tento ensinar aos homens as lições de Touro Sentado,
mas no mundo há mais Buffalos Bills do que se pensa.

Sou esse paradoxo ambulante,
fantasmagórico e espectral,
fruto de um estranho ritual,
mas estou longe de ser um mito
ou uma verdade.

Imprima a verdade,
imprima a mentira,
imprima a lenda,
imprima a desmistificação,
imprima tudo.
Aliene as pessoas com suas caixas cada vez menores.
Logo elas se esquecerão de mim,
me sepultarão em nome do progresso.
Progresso?
Não se olhar nos olhos,
não tocar no rosto uns dos outros,
destruir a realidade física,
isso é progresso?

Prefiro continuar a vagar a esmo pelos ermos
e ir na direção contrária do mar de gente
do que aceitar isso.
Boom...

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