"Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira." (Carl Gustav Jung)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Kynema



“O homem nasceu livre, e em toda parte se encontra sob ferros.” (Jean-Jacques Rousseau)
 
Lá estava eu. Encontrava-me geometricamente justaposto no leito, solitário, a pensar no nada, a negar minha existência. Diametralmente encarava-me frente a um espelho vivamente mortal. Um som gutural saia de minha boca. Meus lábios abriam-se e fechavam-se. Queria gritar, expressar-me de alguma forma.
Imaginava-me pulando por uma imaginária janela, todavia no local em que encontrava-me não havia por onde escapar, fugir, correr, exilar-me da loucura de meus ilógicos pensamentos. Sentia-me catatônico, como uma pedra, sem forças para levantar meus braços e pernas. Minhas pálpebras mexiam-se, juntamente de meus piscantes olhos. Dilatava-se minha pupila em busca de visualizar ao redor, enxergar além do claustrofóbico e espartano branco das paredes prestes a engolir-me, devorar-me, saborear-me e realizar uma indigesta digestão.
Estava nu, desgrenhados cabelos e barba por fazer. Um devaneio? Talvez. A forma de comprovar tal improvável hipótese seria pular da cama direto ao frio, cru e mórbido chão. Com extrema dificuldade e sorte, consegui o feito. Escorreguei dos lençóis da cama e joguei-me ao frio, cru e mórbido chão. Meus olhos não queriam crer no que viam. Um limbo formou-se no lugar do frio, cru e mórbido chão e fui imediatamente engolido, devorado, saboreado. Ao abrir meus olhos, não distinguia onde estava, pois nada via diante de mim.
De repente, ouvi um característico som e uma luz acendeu-se por detrás de minhas costas. Uma imagem formou-se em frente a meu rosto de impassível expressão e de dilatadas pupilas, entretanto, nada havia na tal imagem, apenas um fundo branco com indecifráveis, hieroglíficas palavras, escritas em uma língua de impossível compreensão. Olhei para baixo e agora conseguia enxergar meu corpo, não mais nu, e sim envolto por uma branca vestimenta que impossibilitava-me de mexer meus braços. Gritei muito alto e percebi que minha boca encontrava-se amarrada com um barato lenço. A branca imagem tornara-se viva e cegou-me. Não mais conseguia movimentar-me. Sentia mãos a tocarem em meu petrificado corpo. Ouvi uma rouca voz com sotaque estrangeiro a dizer: “Peguem a cabeça, o centro do espírito crítico. Sem a cabeça, ele não mais questionará.” Outra voz, de aspecto ligeiro, pronunciou: “Tragam a foice.” Um bando de carrascos, sedentos por sangue, terminaram de retirar-me a vida.
E quem lhes narra essa história ungida de extravagantes e extraterrenos rituais? Um espírito e nada mais.         

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