"Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira." (Carl Gustav Jung)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Um manifesto poético: Eztetyka da fome 65 recitado


Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado

nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino.

Até hoje, somente mentiras elaboradas da verdade.

Para o observador europeu,

os processos de criação artística do mundo subdesenvolvido

satisfazem sua nostalgia do primitivismo.

Este primitivismo se apresenta híbrido,

disfarçado sob tardias heranças do mundo civilizado,

mal compreendidas porque impostas pelo condicionamento colonialista.

A América Latina permanece colônia

e o que diferencia o colonialismo de ontem do atual

é apenas a forma mais aprimorada do colonizador:

e além dos colonizadores de fato,

as formas sutis daqueles que também sobre nós armam futuros boatos.

O problema internacional da América Latina

é ainda um caso de mudança de colonizadores,

sendo que uma libertação possível

estará ainda por muito tempo em função de uma nova dependência.

Aí reside a trágica originalidade do cinema novo diante do cinema mundial:

nossa originalidade é nossa fome

e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida.

De Aruanda a Vidas secas,

o cinema novo narrou, descreveu, poetizou, discursou, analisou, excitou

os temas da fome: personagens comendo terra, personagens comendo raízes,

personagens roubando para comer, personagens matando para comer,

personagens fugindo para comer, personagens sujas, feias, escuras.

Este miserabilismo do cinema novo opõe-se à tendência do digestivo,

preconizada pelo crítico-mor da Guanabara, Carlos Lacerda:

filmes de gente rica, em casas bonitas, andando em automóveis de luxo;

filmes alegres, cômicos, rápidos, sem mensagens,

de objetivos puramente industriais.

E foi a partir de Abril que a tese do cinema digestivo ganhou peso no Brasil,

ameaçando, sistematicamente, o cinema novo.

Nós compreendemos esta fome que o europeu

e o brasileiro na maioria não entende.

Para o europeu é um estranho surrealismo tropical.

Para o brasileiro é uma vergonha nacional.

Ele não come mas tem vergonha de dizer isto;

e, sobretudo, não sabe de onde vem esta fome.

Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas,

pode superar-se qualitativamente,

e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência.

Pelo cinema novo: o comportamento exato de um faminto é a violência,

e a violência de um faminto é o primitivismo.

Do cinema novo: uma estética da violência

antes de ser primitiva é revolucionária.

Enquanto não ergue as armas o colonizado é um escravo.

De uma moral: essa violência, contudo, não está incorporada ao ódio,

como também não diríamos que está ligada ao velho humanismo colonizador.

O amor que esta violência encerra é tão brutal quanto a própria violência,

porque não é um amor de complacência ou de contemplação,

mas um amor de ação e transformação.

O cinema novo é um fenômeno dos povos colonizados

e não uma entidade privilegiada do Brasil;

onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade

e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura,

aí haverá um germe do cinema novo.

Onde houver um cineasta disposto a enfrentar

o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo,

aí haverá um germe do cinema novo.

Onde houver um cineasta,

de qualquer idade ou de qualquer procedência,

pronto a pôr seu cinema e sua profissão

a serviço das causas importantes de seu tempo,

aí haverá um germe do cinema novo.

Não temos por isto maiores pontos de contato com o cinema mundial.

O cinema novo é um projeto que se realiza na política da fome,

e sofre, por isto mesmo, todas as fraquezas conseqüentes de sua existência.

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