"Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira." (Carl Gustav Jung)

terça-feira, 5 de julho de 2011

O fantasma

À noite,
enquanto encontrava-me nos braços de Orfeu,
um espírito vem atormentar-me.

É só um fantasma, e nada mais.

Ele veste-se de negro e vem buscar-me.
É um espírito louro e voluptuoso.

É só um fantasma, e nada mais.

"O que queres?", pergunto eu.
Ele responde-me: "Sou só um fantasma, e nada mais."
"Por que te veste de preto?"
"Represento a morte, porém sou um fantasma, e nada mais."
"Vens buscar-me?"
"Sou só um fantasma e nada mais."
"Tu és nada e teu manto negro é tudo."
"Sou apenas um fantasma, um ser rastejante do esgoto, e nada mais."

O fantasma carrega meu espírito.
Observo meu corpo pestilento estendido no assoalho.
Pesaroso sinto-me.
Assim percebo que somos simples mortais.
Espíritos indecentes carregam-me e nada mais.

"Pra onde levam-me?, pergunto eu.
"Vais ao mundo dos mortos e nada mais."

Sinto-me esvaído de vida.
Os espíritos indecentes deixam-me.
O mundo dos mortos é mais negro do que qualquer ferida.
Os habitantes do local vestem-se de branco.
Todos são cegos, olhos não possuíram jamais.
Fico ali a fitá-los e nada mais.
Agora sou um desses espíritos imortais.

Ouço uma voz estridente: "Observe tuas vestes.", diz a mesma.
São negras como a noite.
A voz estridente persegue-me mais uma vez.
"Tu és um mau espírito, um ser horrendo, sedento por sangue, e nada mais."

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