"Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira." (Carl Gustav Jung)

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O espelho de mil faces


Enquanto a navalha afundava em seu pulso fino como um graveto, J. pensava em sua vida. Litros de sangue vertiam de seu pulso e escorriam no assoalho do banheiro, deixando uma mancha escura e estranha no chão, que formava uma imagem diabolicamente medonha. Toda a vida de J. passava por sua mente, as coisas que não tinha feito, as pesadas derrotas e a falta de vitórias.

Como J. havia chegado à pesada decisão de colocar uma navalha em seu pulso, esvaindo-se de sua vida? Nem ele mesmo sabia. Aparentemente havia sido uma decisão intempestiva, tomada após a última humilhação sofrida nas mãos de seu maior algoz: M., conhecido por todos como “O Vampiro”. Era inadmissível um vagabundo como M. humilhar um homem como J. Entretanto, a fraqueza de J. o fez tomar a atitude mais previsível, escolhendo a morte ao invés da vingança.

Em um rompante de loucura, J. se encontra com a Morte, que o convida para dançar. Ela tem a aparência de uma mulher jovem e bela, com cabelos loiros encaracolados, olhos azuis e um corpo voluptuoso e se veste com um vestido branco e apertado que ressalta suas formas.

- Meu jovem, quer vingar-se? – exclama a Morte.

- Vingar-me de que? E para que? – responde J.

- Tolinho, vingue-se de seu algoz. É muito simples, desista de sua morte iminente e aceite sua vida novamente.

- Mas vossemecê é a Morte, não deveria estar contente em levar minha vida?

- Em outra situação, eu estaria radiante, porém sua vida nada me vale. Prefiro lhe dar uma segunda chance de redimir-se.

- Ora, mas vossemecê não é Deus.

- Deus? – a Morte ri ironicamente. – Deus não existe, meu jovem. A escola da vida não ensinou-lhe nada? A descrença matou Deus de desolação.

J. retira a navalha de seu pulso.

- Está bem. Eu aceito.

Uma luz branca surge do buraco em seu pulso feito com a navalha e o engole. J. é transportado por um local escuro, onde nada enxerga, nem sua silhueta. Ele ouve uma voz esganiçada que cantarola: “Desligue sua mente, relaxe e flutue pela correnteza. Vossemecê não está morrendo, não está morrendo.”

J. fecha seus olhos e quando os abre e olha à sua volta, percebe que retornou ao banheiro ou não teria saído dali em momento algum. O assoalho não está sujo de sangue e seu pulso está em perfeito estado. Em suas mãos há uma arma de calibre trinta e oito. J. a aponta para seu rosto e atira. Com o impulso, ele cai para trás, porém não falece. Ele leva sua mão ao rosto e percebe que não há buraco algum causado pela bala. J. olha para suas mãos e percebe que elas estão vazias. Ele ouve uma voz que diz: “Pronto, sua vingança está feita.” J. olha para os lados e vê uma velha decrépita, com inúmeras rugas, e que se encontra fumando um charuto. J. se assusta.

- Quem é a senhora?

- Não me reconhece, meu jovem?

- Meu jovem? Essa é forma de falar da Morte.

- Exatamente.

- Mas vossemecê era uma mulher linda agora há pouco.

- Essa é apenas uma de minhas várias formas.

- O que vossemecê quis dizer com “Pronto, sua vingança está feita”?

- M., “O Vampiro”, está morto.

- Morto? Mas como? Eu não o queria morto, apenas queria que ele sofresse as mesmas humilhações que me fez sofrer.

A Morte ri ironicamente.

- Vossemecê me julga como o que? Sou a enviada do mundo dos mortos que busca as almas daqueles que não merecem destino melhor. Eu apenas troquei vossemecê por M. Agora vossemecê pode continuar sua vida deprimente tranquilamente.

J. grita muito alto e fica trêmulo e apreensivo. Ele fecha seus punhos e parte para cima da Morte, desferindo-lhe um soco no rosto. A Morte volta a assumir a faceta de mulher jovem e bela. J. retira seu vestido branco e penetra a loira e chamativa Morte. Ela grita e geme de prazer e desfere um tapa no rosto de J., que abre seus olhos e percebe que está de frente para o espelho do banheiro, sozinho e nu.

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