"Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira." (Carl Gustav Jung)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

No escuro da noite

"Conheço o espírito de muitos homens e nem sei quem eu mesmo sou!"
(Friedrich Nietzsche)


Acordo no meio da noite ofegante. Está escuro. Acendo o abajur. Um homem está sentado no chão lendo um livro que não consigo identificar qual. O homem está impassível e concentrado em sua leitura, com os dedos nas linhas da página, como se não quisesse perder as palavras de vista. Permaneço durante alguns minutos o observando. Levanto-me e toco seu ombro. O homem coloca sua mão por cima da minha. Ele se vira para mim com um olhar irascível. Ele retira sua mão e eu retiro a minha. O homem coloca seu dedo indicador nos lábios, fazendo um sinal para que eu faça silêncio. Me deito na cama e fecho meus olhos. Quando os abro, o homem não está mais no chão. "Um sonho?", penso eu. Sinto alguma coisa em minhas mãos. Olho para baixo. Estou sentado no chão, na mesma posição do homem, e segurando um livro. Fecho suas páginas. É Kafka, O processo. Olho para o lado. Vejo a mim próprio sentado na cama olhando para o chão, para o quê anteriormente era o homem. Me levanto e vou ao espelho. Não sou em quem vejo refletido. É o homem. Eu grito, todavia som algum sai de meus lábios. "Meu Deus", penso eu, "eu me transformei no homem."

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