"Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira." (Carl Gustav Jung)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Fugidios tempos e negros cabelos

Lá estava ela. Lá num compartimento do metrô linha 743. Lá na beleza de seus encaracolados cabelos negros como a noite. Seus cabelos longos escorriam por seu rosto branco como o mais puro e delicioso leite. Seus cabelos caiam apenas em um lado de seu rosto, como se ela fosse a Rapunzel dos cabelos negros. Sua pele era sedosa como um tecido fino. Ela sorria timidamente, um sorriso meio para dentro, como se tivesse medo de expor seus sentimentos. O que guardavam os caracóis de seus cabelos? Talvez uma história para contar, talvez nada para se interessar. Nada disso importava, pois nada afetava seus gestos principescos. Seus olhos eram pretos como duas jabuticabas grandes e maduras. Eles passavam docilidade, inocência e virginalidade, aquilo que só tinham as moças de outrora. As moças de hoje são variações empobrecidas das femme fatales louras e voluptuosas, não são mais as de outrora. Bons tempos aqueles, aqueles nos quais as moças eram inocentes e curvilíneas. Algumas moças de hoje ainda conservam o charme de ontem, tal como essa garota do metrô linha 743. Seus gestos eram típicos de uma pessoa tímida. Ela não sabia onde colocar as mãos, passando-as sempre pelos lindos e sedosos cabelos, como se estivesse retraída, mas esperando o rapaz certo para alisar seus lindos cachos. Vestia uma camiseta negra como seus caracóis, além da típica calça jeans. Não sabia para onde deter seus olhos e seu olhar se perdia no panorâmico e vasto horizonte do mundo. Ela não fitava a ninguém, exceto a mim em alguns raros instantes. Quem era ela? Apenas uma moça que me trazia nostalgia de tempos que não vivi. Para onde ela ia? Talvez para uma terra distante, onde os caracóis de seus cabelos arrancaram sua história. O metrô chegou a seu destino e a moça de cabelos negros como a noite foi embora e eu fiquei aqui a vagar como um pária. Meus pensamentos esvaíram-se. Tempus fugit, meu amigo.

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