"Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira." (Carl Gustav Jung)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Faz-se a face


A quarta parede da vida em cacos,
dispersa em seus vidrados estilhaços,
em resíduos de despedaços.

...e o poeta a jogar suas metas foras
para dentro do poema...

sábado, 10 de junho de 2017

Ser e não ser


Viver é o sem sentido
consentido e concedido
sem fins e inícios
em infinitivo infinito.

Alguns procuram fins lucrativos,
outros o fim sem fim,
muitos a metafísica dos princípios.

Eu sigo errante,
por certa errada direção,
em busca de mim,
das subjetivas erratas em construção,
enxergando que não enxergo o caminho.

Sou faísca de tempo
em sem tamanho universo
que habita o fora e o dentro.

Em constante onisciência,
habito o pretérito de meu ser
ao ser grande e pequeno,
ao estar e não estar aqui, ali e acolá,
apenas a transitar a pé pelo trânsito
do caos a sempre me habituar.

domingo, 9 de abril de 2017

Por aqui

Não estou aqui há muito tempo.
Em verdade, não sei se algum dia já estive...
Aliás, onde é o "aqui"?
Ele existe de fato?

Este aqui...
Esse aqui...
Aquele aqui...

Cá...
Lá...
Acolá...

Estou diluído no universo.
Sou etéreo.
Voando sob o asfalto,
como um anjo torto de asa quebrada,
em minha (in)existência vã.

Sou viajante cósmico.
A viajar, viajar...
A vagar, vagar...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Falta


Asas, asas,
vastas asas.
Queria possuir asas e, 
com e como os pássaros,
voar por aí sem destino,
e nessas fugazes fugas,
longe das angústias
e das melancolias,
ir talvez em busca
de certo emplasto Brás Cubas
ou mesmo de um Graal,
sentir oh odor das flores da esperança,
qualquer dose de reconforto
para as dores mundanas...

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Fazes as fezes

 
Igrejas brotarão aos montes do chão,
em constante poluirão...


E o que tu fezes?

Burgueses bradarão eterna reclamarão,
em orais dejetos fascistirão...


E o que tu fezes?

Ruralistas da t(T)erra se aproveitarão...

E o que tu fezes?

Empresários aos pobres neoliberarão...

E o que tu fezes?

Políticos golpistas a ti usurparão...

E o que tu fezes?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Fértil



Os fantasmas se riem de mim,
com escárnio
desse ser fragil,
em um fim sem fim...

As flores que desabrocham...
são regadas pelos fantasmas
e se afogam.

As flores são tímidas,
são desencantadas,
mas estão vivas
dentro do jardim abismal,
no interior dos fundos do ser.

E o fim é apenas o início...

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Fractal




Os meus pedaços são rareados
como flores no deserto.

Espalhados, eles estão,
frisados, 
por aí, 
por aqui, 
acolá...

São fragmentos de uma vida, 
fragmentada, 
fragmentária.

São cacos 
de um espelho quebrado,
alquebrado, 
os quais narcisicamente evito.

Frago e flagro 
movimentos no mundo, 
fugidios, 
furtivos, 
cacofônicos e sinestésicos, 
claustrofóbicos e surdos, 
às vezes perfumados, 
outras com mau cheiro. 

Minhas lágrimas e gotas de suor, 
secas como a areia do deserto, 
estão pungidas no chão, 
petrificadas no ar, 
vaporizadas no céu. 
São as chuvas de meu corpo, 
são matérias vertentes 
que vertem e fertilizam 
minhas dores, dores, 
vastas dores... 

Se em pranto entro, 
fecundo as terras do papel 
e um poema brota. 
O pranto planta um poema 
e se suplanta, 
momentaneamente, 
minha melancolia sem fim, 
meio ou início...

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Poema-pânico


Em meio à solidão dos prédios 
me sentei e chorei. 

Verti lágrimas pelo mundo fálico 
que autoritariamente machista 
(e bélico) 
aprisiona os séquitos. 

O céu, 
linda e azul prisão, 
é para os néscios uma divina criação. 

Em toda a sua bela estética 
os prédios são homens de ternos 
cinzas 
carrancudos 
másculos 
fascistas 
e sisudos. 

Os prédios são empresários, 
são fundamentalistas, 
são homens de toga e de celibato, 
que penetram a terra com seu sêmen, 
gozado por engenheiros e arquitetos. 

Os prédios são o capital, 
são o boi carcomido pela fome, 
pela seca, 
em suma, 
por D(d)eu$. 

(São a criança que pede esmola no sinal...) 

As lágrimas de meus olhos, 
que escorrem em direção contrária ao falicismo, 
são nada mais do que meros 
nada mais, 
são nonadas 
e Josés que dizem: 
"e agora?"

Ainda há para onde caminhar 
em meio a esse caos, 
ou é sem rumo a estrada? 
Fugir? 
Para onde?

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Olhos, olhos, vastos olhos


Somos um do outro espelho.
Quando nos olhamos,
nos refletimos
enquanto nos repelimos.


Os olhos são um universo,
são um panorama aberto
para os fundos,
fundos,
para outros fins,
meios
e inícios,
para outras vidas
que fogem da vida
em meio à correria da cidadela.

Ah,
talvez se nos olhos
houvesse um cifrão,
a humanidade não seria cega
para o outro
que ao seu lado transita em vão...